“Pai,

Eu não gostaria de ter o direito de votar contra ou a favor do impeachment hoje, ou seja, estar no seu lugar. Para mim, seria difícil.

Difícil para mim, por conta da pressão da maioria e do pensamento autoritário e ignorante do cidadão/mídia, ou qualquer outro ator político, que acredita que quem pensa diferente é porque tem interesse ou tem a mesma natureza de quem está sendo julgado.

Difícil para mim, porque talvez tenha herdado uma habilidade de liderança com a qual brigo diariamente. Ao mesmo tempo em que lidero pessoas no dia a dia, gostaria de não ser alvo; foco; ser exposta -coisas que naturalmente vêm da opção de liderar.

Acho muito oneroso. Pesa muito. E o processo decisório é solitário.

Ao mesmo tempo, não consigo deixar de ter opinião e decidir na minha rotina. Então vivo nessa briga interna, entre ser de um jeito e não querer ser.
Voltando ao ponto. Acho que a Presidenta vai cair e acho que não se tem que votar só porque a maioria vai votar; e sim por nossas, no caso, suas convicções.
Acho que o mais correto seria ela terminar o mandato dela e que o que o povo decidiu deveria ser mantido.

Quero crer que a democracia sairá mais forte deste processo constitucional (não acredito em golpe; afinal, nossos representantes decidirão, com base em processo definido constitucionalmente se ela vai ficar ou não), mas tenho dúvidas disso.

Tenho dúvidas porque muita coisa precisa mudar em nós como cidadão brasileiro. Tenho dúvida porque não sei se o cidadão brasileiro vai passar a ter autocrítica e tentar agir corretamente e com ética por conta disso.

Tenho dúvida porque a base da nossa cultura tem que mudar para que a política seja mais limpa como desejamos.

Então, acho que na segunda, vamos acordar com um gosto amargo de quem sonhou, idealizou e não compreendeu que não adianta só sonhar, tem que corrigir os erros (os nossos como indivíduos, que somos partes de um todo) diariamente; então vamos acordar com os mesmos problemas que dormimos no domingo.

Mas, infelizmente, sabemos, o processo também não será julgado pelo que consta nos autos e sim por uma série de eventos somados.
Fico feliz de estar bem representada no Congresso, liderada por um Homem que faz valer suas convicções; independente de eu concordar ou não com algumas delas, até porque nem sei se discordo desta e estou grata por não ter que decidir!

Sendo assim, peço a Deus então que lhe ilumine e lhe dê sabedoria, não apenas para essa decisão, mas para todas as outras, e, especialmente, para driblar a pressão e a incompreensão dos demais.

Por Liza Fernanda Fernandes”